Março 04 2013

 

Nos anos 90, o então presidente Mário Soares decretou o célebre direito à indignação dos portugueses. Estando ou não de acordo, não há dúvida que essa foi uma mensagem política marcante, agitadora, pela força do próprio conceito. Uma declaração avisada de quem parecia compreender os sinais efervescentes de uma sociedade descontente perante as desigualdades. Uma mensagem que admitia a dignidade no sentimento de cada português indignado.

 

Hoje a banalização do termo é triste. Esse sentimento pré revolucionário parece desconsiderado. Temo mesmo que, haja quem acredite, que uma sociedade gere-se e progride mesmo carregando consigo um amplo sentimento de desconforto e indignação. Como se a indignação fosse um significado displicente e menor e não o último recurso avisador que indicia os primeiros riscos de perda da coesão social.

 

Por isso compreendo muito bem que surjam os movimentos dos indignados. Isso sente-se, sei que é bastas vezes intrínseco e genuíno. Compreendo ainda mais a revolta dos reformados e a sua oposição pública à perda de direitos. Não estranho portanto a recente criação do MRI (Movimento dos Reformados Indignados). Faz sentido. Não há aqui notícia!

 

O que me cria estupefação é o ex-banqueiro Fernando Pinhal, titular de uma reforma milionária, encabeçar a liderança deste movimento. É claro que com certeza também sofreu cortes, é claro que mantém todos os direitos de cidadania. Mas para mim, em tempos de emergência, faz mais sentido a indignação das pessoas cuja sua dignidade, inerente à precarização das suas condições de vida, fica realmente em causa.

 

Um dia destes ainda vou fundar um movimento de indignação contra os indignados que não têm sequer a dignidade de perceber o verdadeiro alcance da genuína indignação. Eu explico. Boa parte da indignação de hoje reflete os sacrifícios brutais a que estamos sujeitos. Em grande medida devido ao desvario de muitos anos de excessivo crédito e remunerações insustentáveis e imorais. Tal como aquelas que eram pagas a Fernando Pinhal. Indignas portanto! Pois é, suspeito que a indignação de Fernando Pinhal é apenas contra o que lhe retiram da sua carteira. Mas para a maioria dos portugueses não, não é só isso, infelizmente! Indignam-se por temer não conseguir dar esperança nem futuro aos seus filhos. Não há dúvida que é preciso cuidado com os “movimentos” de alguns dos atuais indignados. Aqueles que navegam ao sabor das marés…

publicado por pontoprevio às 20:10

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