Setembro 12 2012

 

Que raio de noite mal dormida! Cansei-me a imaginar coisas tontas!

 

Às tantas, recordo-me de um enorme laboratório social. Tão magnífica era aquela estrutura que só pode ter sido edificada por uma Parceria Pública Privada, repleta de cláusulas secretas porque aquilo que é apenas meio público não necessita de ser divulgado. Muito menos escrutinado. Aliás, para quê dar informação às cobaias? Não vá a experiência correr mal…

 

E lá estava aquela obra sumptuosa, cheia de luz e sol, aqui e ali recortada naqueles poucos casos onde não foi possível alterar à pressa os limites da reserva ecológica. Contavam-me até que, para combate férreo ao desperdício na sua construção, foi possível aproveitar toda a cortiça de uns milhares de sobreiros abatidos para o isolamento de submarinos topo de gama.

 

Aquando da sua inauguração, só a antiga televisão pública não apareceu uma vez que o exaustivo caderno de encargos que determinava o serviço público a prestar pelo concessionário, elaborado por três mil doutos consultores contratados a preço de saldo, porque o tempo não está para grandes faustos, ficou omisso quanto ao compromisso de fazer reportagens sobre inaugurações laboratoriais. E assim, o administrador da concessão preferiu transmitir a série o “abc do crime”, um autêntico sucesso de audiência conforme confirma a gfk.

 

Entretanto, no laboratório a experiência entrou numa fase crucial. Perceber os limites de aceitação da sociedade à sucessão de sacrifícios desiguais tornou-se um interessante caso de estudo, o qual motiva a curiosidade internacional. Determinar austeridade sobre austeridade sem esclarecer as razões da sua inevitabilidade, sem explicar as metas a atingir, sem contrariar desigualdades e privilégios, sem que a sociedade acredite na eficácia das medidas só pode visar compreender até onde chegará a coesão social e o compromisso coletivo. Digo-o com mágoa mas não sentia na troika de experimentalistas nacionais e internacionais qualquer vontade de abrandar a medição da resistência. Depois disto é certo que o Doutor dos assuntos parlamentares nacionais e além-fronteiras se tornará finalmente na sumidade académica, tal como merece, reforçando o prestígio da sua universidade, do seu partido, da maçonaria e do folclore nacional.

 

É desta que vou tomar um comprimido para dormir…

publicado por pontoprevio às 19:29

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