Outubro 10 2010

Encarar a realidade é duro, em especial quando essa realidade é particularmente difícil. Sobretudo quando confrontados com expectativas frustradas. E tudo isso somos nós, agora…

 

Enquanto digerimos as medidas anunciadas para o próximo orçamento, temos hoje a certeza que virão dias piores. E porquê? Porque não conseguimos suportar mais o desequilíbrio e os juros da dívida, não nos é viável solicitar mais crédito, não é aceitável transferir mais despesa para as próximas gerações.

 

Neste cenário, apela-se à responsabilidade colectiva, ao compromisso, perante a ameaça de uma forte contestação social. Pressiona-se o principal partido da oposição para que assuma o próximo orçamento, seja lá qual for, mesmo em contradição com os princípios anunciados para a sua viabilização, em nome da confiança dos mercados e a estabilização dos juros da dívida. Inevitável, digo eu.

 

Mais uma vez a receita visa essencialmente o curto prazo, dinheiro imediato por via de um novo aumento dos impostos, tentando aliviar a pressão de hoje, mas não resolvendo, estruturalmente, os problemas de amanhã. Antes pelo contrário, o aumento dos impostos, a dificultar o crescimento económico e porventura mais desemprego, ou seja, prevê-se o prolongamento de uma agonia lenta. Compreendo a dificuldade de viabilizar o orçamento anunciado mas ficar com o ónus de que tudo o que vier a correr mal se deve à não aprovação do orçamento seria, a meu ver, um erro crasso. Por isso, embora se alimente a expectativa quanto à aprovação do orçamento, essa aprovação está condenada a ocorrer. Na verdade, o líder da oposição encontra-se em início de ciclo político, tem tudo a perder, ao contrário de José Sócrates, que assim, tem mais condições para extremar a sua posição.

 

O problema é que o sentido de sacrifício e compromisso que se pede à sociedade não tem sido sempre acompanhado do mesmo sentido de responsabilidade ética e de exemplo por parte dos nossos responsáveis. Seriam vários os tópicos que poderia apontar. Mas cito um, que me parece emblemático e porque temos tendência para esquecer essas ambiguidades: - Em 2009, ano de eleições, a administração pública recebeu um aumento de valor superior à inflação. A realidade talvez não fosse tão agudizante mas o desequilíbrio nas contas públicas já era um problema crónico. Agora, desce-se a remuneração e duramente. E nem está em discussão se essa medida é ou não uma aberração jurídica, isto é uma potencial violação dos princípios constitucionais. Nem vale a pena entrar por aí.

 

São esses ciclos de verdade e inverdade, de responsabilidade e irresponsabilidade, ao sabor da luta desenfreada pelo poder que fragilizam ou tornam desprovido de legitimidade o pedido de aceitação junto da sociedade. Até porque estamos envoltos de falta de confiança e em crise de liderança. Veremos como suportaremos o ano de 2011. Talvez o problema maior não venha a ser o orçamento mas sim a pressão social…

publicado por pontoprevio às 02:20

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