Janeiro 21 2011

Seguramente que o tema crise e as suas repercussões já nos martiriza. Não que não seja útil reflectir sobre ele, mantê-lo presente e sobretudo aprender para memória futura. Mas na verdade, embora o tema nos persiga há tempo considerável este será o ano em que se vai reflectir com mais acuidade no bolso dos portugueses.

 

As empresas esgotadas, o desemprego crescente, o sector público a contrair, chegam agora os propalados cortes salariais na função pública. Mas não só, o orçamento geral do Estado cativou montantes muito significativos que reduzem as disponibilidades financeiras para a celebração de prestações de serviço. Impõe, ainda, que todos contratos a renovar ou similares a anteriores que venham a ser celebrados demonstrem uma redução remuneratória de acordo com regras previamente fixadas. Isto é, uma regulação com reflexo restritivo na actividade das empresas, em particular, de todas aquelas que têm uma dependência elevada do subsector Estado. Em duas palavras: Tempos difíceis!

 

No dia em que muitos trabalhadores em funções públicas começam a ser confrontados com a redução remuneratória foco a reflexão nos mesmos, manifestando a minha declaração de interesses dado que mantenho esse mesmo estatuto.

 

Em primeiro lugar para destacar um lugar comum que tem tanto de banal como de verdade. No Estado prestam funções bons e maus trabalhadores. Pessoas empenhadas e responsáveis assim como outros desinteressados e displicentes. Gente com valores e outros sem escrúpulos. Uma das diferenças entre sector privado e público é que o primeiro demonstra outros mecanismos para renovar ou alterar vínculos contratuais mas até essa realidade está mudar. De igual modo, tem mudado e a um ritmo significativo a desmaterialização de processos, o investimento tecnológico e a própria cultura organizacional, verificando muitos serviços que implementam lógicas de organização empresarial.

 

Neste contexto, o que muitas vezes é desconsiderado são o conjunto de circunstancialismos nefastos que ocorrem na Administração Pública com maior frequência do que devido, que acabam por condicionar atitudes individuais. Na verdade e a título de exemplo, embora regulado, tarda a aplicação do regime de progressão, prevalecendo o congelamento de carreiras. Na prática, a total inconsequência entre boa ou má notação, desconsiderando-se o mérito e a dedicação.

 

Por outro lado, em múltiplos contextos, graça a nomeação inexperiente, a apropriação desonesta do esforço de terceiros sem qualquer reconhecimento. O destaque da imagem e da leviandade. E tudo isso vai manchando a Administração no seu seio. Sem querer branquear atitudes impróprias, que as há, parece-me ainda assim que muitas vezes os trabalhadores em funções públicas são comummente criticados mas poucas vezes compreendidos.

 

Não obstante e ao longo de um percurso profissional que já arroga o direito de evocar alguma experiência, a qual permitiu cruzar com o muito bom e o muito mau, verdade seja dita que muitos são os que por compromisso, valores, ética e sentido de responsabilidade lutam por prosseguir empenhadamente com a missão dos serviços em que se inserem. A todos eles o meu apreço e homenagem reconhecendo que só mesmo assim será possível ultrapassar mais rapidamente o mau momento.

 

Nestes dias maus não percamos a consciência de que as dificuldades são gerais e que, afinal, muito pior se encontram todos aqueles cuja recessão económica não permite hoje a integração no mercado de trabalho.

publicado por pontoprevio às 01:35

mais sobre mim
Janeiro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


pesquisar
 
blogs SAPO