Fevereiro 20 2011

São impressionantes as alterações da nossa sociedade. Nem sempre nos consciencializamos disso. Em particular, penso na criação da Web e a sua generalização. Tenho-a como uma evolução brutal da sociedade e das suas dinâmicas organizacionais. Uma mudança alucinante cujo impacto ainda não estará verdadeiramente interiorizado nem percepcionado.

  

Na verdade, os conceitos de acessibilidade mudaram completamente de paradigma. A pesquisa de informação está à distância de poucos “cliques”. São cada vez mais uma opção individual, uma escolha com menores barreiras económicas ou tecnológicas. Ainda que, naturalmente, não esteja disponível a todos, cresce, contudo, e de forma abissal, a sua universalidade.

 

O mais extraordinário neste novo mundo é a relação bi-unívoca, o conceito de rede, onde se congregam espaços de partilha e de pesquisa. Todos procuram mas todos alimentam. Um instrumento que democratiza sem paralelo o acesso à cultura e conhecimento. Uma ferramenta que denuncia a incúria e o abuso de poder.

 

E claro, como tudo na vida também tem o seu lado lunar. A exposição que permite convoca à hipotética distorção dessa informação, sendo que não somos uma geração preparada para lidar com essa nova circunstância. No fundo, a mera opinião, a simples partilha, mesmo que na sua génese parta de um objectivo inocente pode amanhã justificar ou condicionar uma avaliação futura de nós mesmos. Influenciar o olhar ou a decisão de outros sobre o nosso futuro. Estaremos preparados para enfrentar este mundo novo?

 

Não pretendo deter-me por aí. Foco-me tal como comecei na dinâmica de mudança. Hoje, sem condicionalismos de tempo ou geográficos, na nova caixinha mágica, visito com uma qualidade gráfica assinalável a pintura dos grandes mestres. Escolho e descubro músicas. Revisito opiniões e gostos de amigos. E tudo isso é extraordinário. Naquele cantinho de conforto aprendi a extrair momentos de prazer que me complementam. E são escolhas exclusivamente minhas, mesmo que propostas por outros.

 

Por outro lado temos hoje a consciência que qualquer um de nós pode ser um eficaz denunciante do atropelo de direitos ou de atendimento desrespeitoso. Todos temos acesso ao exercício da opinião e por isso maiores responsabilidades na cidadania. Estão em risco as prepotências e os abusos de poder. Cada um de nós pode ser mais do que um boletim de voto incógnito.

 

Mais, as instituições criam plataformas de informação em tempo real, ligadas ou não aos cidadãos quanto se conjugam interesses comuns. São muitos deles repositórios fundamentais de dados, permanentemente acessíveis, que ajudam a projectar o futuro e as opções de gestão, criam espaços de transparência e desmaterialização, rompendo com a opacidade tradicional, germinando laços de confiança.

 

Prefiro pois enaltecer as virtudes deste mundo novo e acreditar ingenuamente na bondade e fantástica capacidade criativa do Homem para fomentar o lado extraordinário da Web. Encaro-a como um dos maiores exercícios de democraticidade pela acessibilidade de informação que induz e como tal, a maior transferência de poder em curso junto da sociedade. E como poder é responsabilidade, todos nós percebemos que nos cabe maior exigência pois temos disponíveis meios cada vez mais eficazes para a mobilização colectiva e defesa de causas. Estaremos preparados? Estará a classe tradicionalmente mais poderosa igualmente preparada?

 

publicado por pontoprevio às 23:13

Fevereiro 06 2011

Por vezes ocorre-me uma imagem simples como uma metáfora do percurso de vida. Imagino a escalada de uma montanha, que exige esforço, onde procuramos os melhores caminhos. E tal como em qualquer ascensão, tendemos a vislumbrar com mais facilidade os melhores caminhos quanto mais alto estamos. Por outro lado e à medida que subimos, com conhecimento de causa, podemos reconhecer os trajectos passados errados. Longe, contudo e sempre, de se saber tudo, quer estejamos ainda em percurso ascendente ou mesmo descendente, há sempre caminhos desconhecidos a tomar.

 

No pressuposto de alguma curiosidade nesta imagem impõe-se ponderar sobre o que representa um percurso ascendente ou descendente. Ou ainda, mais crucial, o que é ou quando se atinge o cume?

 

É perante essa interrogação que surge porventura a relevância desta crónica. Não sei se por pura influência de ter nascido em 71 mas costumo pensar, e já assim o pensava, que, metaforicamente, é em redor dos 40 anos de idade que atingimos o cume. Momento muito relevante, onde se congrega uma vivência significativa e a maior visão para optarmos pelo caminho que ambicionamos ainda trilhar. Temos consciência das opções tomadas mas também a noção que, embora se deva acreditar na experiência vivenciada, já não se espera desta geração a revolução, o arrojo a epifania.

 

E ao contrário do que poderão pensar não anuncio com orgulho ou particular satisfação esta convicção de que cabe à geração que atinge os 40 a conquista do cume. Na verdade, a ser assim, só releva o peso complexo que a mesma carrega. Como se fosse sua obrigação as últimas grandes decisões, a derradeira oportunidade para grande transformação ou mudança de rumo.

 

No meu percurso ascendente tenho optado por olhar em frente, mas como estou bem no alto da tal montanha e essa é talvez uma visão privilegiada, por vezes apetece-me olhar para trás. Sinto que já trilhei um percurso significativo com felizmente muitos altos mas também alguns baixos. Mas todo ele ultrapassado por esforço próprio. Não vislumbro ou não me martirizam trilhos errados nem problemas de consciência. E o mais grandioso e fundamental é que estão comigo as pessoas mais importantes.

 

Por tudo isso, se estiver em vias de iniciar a descida, sinceramente, encaro-o, hoje, com muita serenidade.

 

E a todos, especialmente aqueles que nasceram no início da década de 70, votos das melhores escolhas e um percurso cheio de sonhos e realizações…

publicado por pontoprevio às 20:47

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