Dezembro 30 2012

Ontem confirmaram-se as minhas suspeitas. Há muito mais ironia e humor nos portugueses do que à primeira vista admitimos. Habitualmente somos caracterizados pela expressão da saudade e do fado, no seu tom de dramatismo e profundidade, o que oculta o lado sarcástico e humorado dos portugueses.

 

No primeiro canal do serviço público foi ontem emitido um programa que convidava os telespetadores à eleição da canção do ano. Louvei a iniciativa, aplaudindo aquilo que é uma parte fundamental do serviço público, a promoção da música nacional e a criação artística.

 

Confesso que as canções finalistas não me eram particularmente entusiasmantes mas os gostos são a expressão da estética de cada um e eu respeito-os. Aliás, este texto não pretende criticar a escolha do tema do Emanuel “Baby és uma bomba”, não obstante essa eleição demonstrar por si só a expressão humorada dos portugueses. Como refiro, deixo de lado a estética da canção. Recuso-me a discuti-la.

 

O que me interessou naquela votação dos portugueses foi a inequívoca prova de ironia que tal encerra. Na verdade, a canção portuguesa escolhida foi afinal a única que nem sequer em português era totalmente interpretada. Logo percebi todo o humor por de trás daquela opção.

 

Não há dúvida que se abre um espaço para outros programas similares na RTP. Programas que apelem à participação e ao voto humorado dos telespetadores. Lembrei-me, por exemplo, de lançarmos a escolha da personalidade portuguesa do ano. Com a ironia que nos carateriza não seria tarefa fácil a votação. Entre Vale e Azevedo, o português inocente mais perseguido pela justiça nacional, ou Miguel Relvas, o estudante mais produtivo que há memória, ou, por exemplo, Artur Baptista da Silva, o português voluntário que mais rapidamente dignificou a ONU, a escolha da personalidade do ano seria complexa.

 

Claro que, propositadamente, e por razões sentimentais, omito das opções Godinho Lopes e a sua gestão desportiva de sucesso. Não é que não mereça lá constar. Ele e uns outros, mas isso agora não interessa nada…

publicado por pontoprevio às 18:09

Dezembro 23 2012

Escrevo-vos após o fim do mundo! E não estou nada desiludido. Sempre imaginei que, quaisquer que fossem as experiências futuras da vida, não me podia faltar um sofá parecido com o meu.

 

Estou fascinado com este novo mundo. Do que me apercebi está no ar um sentimento solidário e fraterno entre as pessoas. Muitos amigos desejam boas festas e votos de um bom ano. Multiplicam-se campanhas de solidariedade para com os mais desfavorecidos. Que seja bem-vinda esta nova humanidade.

 

Finalmente parece que se encaixam as peças do puzzle, rumo ao início de uma nova ordem. Guimarães, o berço da nação, tem sido palco e o centro das nossas atenções. A cultura é afinal a origem das coisas.

 

Ontem assistia pela televisão ao concerto de Ivan Guimarães Lins e a Orquestra Fundação Estúdio. Eis que ao juntar-se Paulo de Carvalho tive uma premonição. Mais do que a própria comoção de assistir a um abraço do tamanho do Atlântico, aqueles momentos que demonstram que somos muito mais do que a nossa própria dimensão, perguntei-me neste novo mundo “E depois do adeus” que faz Paulo de Carvalho ali. Que senha de esperança lhe compete?

 

A emoção com que saboreava o momento trouxe-me a resposta. Tudo fazia sentido. No dia em que o mundo deveria ter acabado, a partir da cidade berço, ecoava “começar de novo”. Quem assistiu compreenderá a mensagem. De Guimarães, neste novo tempo, caberá a todos os portugueses começar de novo a árdua tarefa de reconquistar a soberania nacional. É essa a dimensão da arte criativa. Apontar caminhos muito para além do que estaríamos à espera.

publicado por pontoprevio às 13:40

Dezembro 16 2012

No meu espírito ainda faltavam alguns minutos para concluir a corrida matinal. Eis que no torpor daqueles passos arrastados sou surpreendido por uma criança de bicicleta que levanta os braços e grita vitória.

 

Obriguei-me a despertar e logo percebi que estava ali traçada a linha de meta, mesmo sem quaisquer marcas evidentes. Olhei em redor e compreendi que aquela criança tinha conseguido a mais extraordinária recuperação, vencendo mesmo quando tudo indicava ser impossível. Sem dúvida que aquele rapaz era um herói. Tal como eu o fora na idade dele.

 

Também eu tracei metas com linha invisíveis, escolhi adversários, venci os mais temíveis em recuperações desumanas. Estive nos Pirinéus e nos Alpes mesmo enquanto contornava o quarteirão da minha rua. Encadeei-me com os flashes dos fotógrafos e resisti com uma humildade desarmante a todas as perguntas dos jornalistas.

 

Agora não, tudo é diferente. Deixei de traçar metas porque elas não se marcam onde queremos. Hoje não escolho adversários, evito-os. Estou velho, deixei-me de heroísmos. Direi apenas que abandonei a alta competição.

 

O que é curioso é que nem sempre é isso que acontece com os mais crescidos. Há ainda quem faça da sua vida uma permanente competição. O problema é que o faz sem a ingenuidade e inocência do tempo de criança.

 

E eu, perdido nesta reflexão, aproveitei o facto de estar cansado e parei logo ali a seguir à linha de meta que a criança traçou…

publicado por pontoprevio às 20:58

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